Dois pretendentes: uma parábola
Jun 17, 2026
Imagine, por um momento, que você é o universo.
Mas para os fins deste experimento mental, vamos imaginar que você não é o universo mecanicista desencantado da cosmologia moderna convencional, mas sim um cosmos misterioso, de alma profunda, dotado de grande beleza espiritual e inteligência criativa. E imagine que você está sendo abordada por duas epistemologias diferentes, como se fossem dois pretendentes que buscam conhecer você. A quem você abriria seus segredos mais profundos?
A qual abordagem você estaria mais inclinada a revelar sua natureza autêntica? Você se abriria mais profundamente para o pretendente – a epistemologia, a maneira de saber – que buscasse conhecer você como se você tivesse uma essencial falta de inteligência ou de propósito, como se você não tivesse qualquer dimensão interior digna de nota, qualquer capacidade ou valor espiritual; e que portanto enxergasse você como sendo fundamentalmente inferior a ele (digamos, de maneira não totalmente arbitrária, que os dois pretendentes são do gênero masculino); que se relacionasse com você como se o valor da sua existência fosse dado principalmente pelo quanto ele pudesse desenvolver e explorar seus recursos para satisfazer suas diversas necessidades; e cuja motivação para conhecer você fosse, no fim das contas, alimentada por um desejo de aumentar o domínio intelectual, a precisão das previsões e o controle eficiente sobre você, em nome da auto-melhoria?
Ou será que você, cosmos, se abriria mais profundamente para aquele pretendente que enxergasse você como sendo no mínimo tão inteligente e nobre, tão valiosa em sua existência enquanto ser, tão permeada por mente e alma, tão imbuída de aspiração moral e propósito, tão dotada de profundidade espiritual e mistério quanto ele próprio? Esse pretendente busca conhecer você não para que ele possa melhor explorá-la, mas sim para se unir a você e assim trazer à tona algo novo, uma síntese criativa que surge das profundezas de vocês dois. Ele deseja liberar aquilo que foi escondido pela separação entre aquele que conhece e o que é conhecido.
O objetivo maior do seu conhecimento não é aumentar o domínio, as previsões e o controle, mas sim obter uma participação mais sensível, rica e empoderada em um desenrolar co-criativo de novas realidades. Ele busca uma realização intelectual que está intimamente ligada com a visão imaginativa, a transformação moral, a compreensão empática, o deleite estético. Seu ato de conhecimento é essencialmente um ato de amor e inteligência combinados, de maravilhamento bem como de discernimento, de abertura para um processo de descoberta mútua. Para quem você estaria mais inclinada a revelar suas verdades mais profundas?
Isso não é dizer que você, universo, não revelaria coisa alguma ao primeiro pretendente, sob a coerção de uma abordagem objetificante e desencantada. Esse pretendente sem dúvidas extrairia, filtraria e constelaria uma certa "realidade" que ele naturalmente iria encarar como conhecimento autêntico do universo, de fato: conhecimento objetivo, "os fatos", em comparação às ilusões subjetivas das outras abordagens. Mas podemos nos permitir a dúvida: quão profunda é a verdade, quão genuíno o reflexo da realidade mais profunda do universo que essa abordagem é capaz de oferecer. Esse conhecimento pode acabar sendo profundamente ilusório. E se essa visão desencantada fosse elevada ao status de ser a única visão legítima do cosmos sustentada por uma civilização inteira, que perda incalculável, que empobrecimento, que trágica deformação, que lástima seria sofrida, no fim das contas, tanto por aquele que conhece quanto pelo que é conhecido.
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Trecho traduzido para o português brasileiro por Mariana Bandarra. Para ler o artigo de Richard Tarnas na íntegra (em inglês), clique aqui.